Receita para a boa morte
Em , o psiquiatra francês David
Servan-Schreiber relata seus últimos meses de vida. Tocante e espantoso
Giuliano Bergamo
EFE
"Não é tão difícil falar com uma pessoa que luta contra a
doença. Às vezes um simples contato físico, como pôr a mão sobre a mão
do doente, sobre seu ombro, pode ser suficiente. Um contato que expresse
de modo direto: ‘Estou aqui, ao seu lado. Sei que está sofrendo’." - David Servan-Schreiber, em foto de 2006
Ecoando o pensador romano Cícero, lê-se no ensaio “De como filosofar é
aprender a morrer”, do escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592):
“Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a
morrer desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência
compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime
de toda sujeição e constrangimento”. Se houve um homem livre nesse
sentido, foi o psiquiatra francês David Servan-Schreiber. Autor de Curar
e do best-seller Anticâncer, ele lutou durante vinte anos contra um
tumor maligno no cérebro. Aos 50 anos, sucumbiu à doença em 24 de julho
passado. Morreu como queria — ao som do segundo movimento do
Concerto para Piano Nº 23 de Mozart. Seu último livro,
Podemos Dizer Adeus Mais de Uma Vez, é uma lição emocionante de como morrer bem ou, como descreveu a revista francesa
Paris Match,
“um manual de vida estarrecedor”. “Ter a possibilidade de preparar a
partida é, na verdade, um grande privilégio”, escreveu ele.
O relato de Servan-Schreiber começa com a recidiva do câncer, em junho
de 2010, e termina dois meses antes de sua morte, quando a doença já lhe
roubara a voz e quase todos os movimentos. Lançado no Brasil pela
editora Fontanar,
Podemos Dizer Adeus chega às livrarias na
próxima semana. A lucidez e a honestidade com que o médico descreve seus
últimos momentos de vida são, mais do que tocantes, espantosos.
Enganam-se aqueles que esperam ler o depoimento de um homem que nada
teme ao antever o fim da própria existência. O psiquiatra tinha, sim,
medo da morte — e muito. Mas enfrentou o pavor com as lições de coragem
que o pai lhe deu na infância. A principal delas, “aguentar firme mesmo
tremendo como vara verde”. O psiquiatra era o primogênito dos quatro
filhos de Jean-Jacques Servan-Schreiber, jornalista, ensaísta e político
francês, morto em 2006, vítima das complicações da doença de Alzheimer.
E o psiquiatra aguentou firme. Em alguns momentos, o livro é uma
espécie de guia desprovido de sentimentalismo ou pieguice. Como no
trecho em que Servan-Schreiber conta sobre o dia em que chamou a mulher,
Gwenaëlle, para planejar o futuro dos filhos depois de sua morte —
Charlie, então com 2 anos, e Anna, com apenas 6 meses. De seu primeiro
casamento, ele teve Sacha, na ocasião com 16 anos. “Fiquei muito
surpreso ao descobrir até que ponto a redação de um testamento pode ser
gratificante. Ela cria um sentimento de domínio total e, ao mesmo tempo,
de generosidade, doação, transmissão”, descreveu.
É raríssimo encontrar um paciente terminal que consiga falar sobre o
que o espera com tanta naturalidade. A morte permanece um assunto tabu.
Uma senhora de 91 anos, paciente da médica Maria Goretti Maciel,
diretora do serviço de cuidados paliativos do Hospital do Servidor
Público Estadual, de São Paulo, é vítima de câncer de pâncreas desde
abril. Ela nunca conversou com a família sobre a gravidade da doença,
tampouco sobre o fim que se aproxima. Ainda assim, pediu aos filhos que
organizassem uma festa de Natal antecipada. No domingo passado, todos se
reuniram para uma ceia e a troca de presentes. É de perguntar se o não
dito tornou a festa menos penosa.
O primeiro diagnóstico de câncer de Servan-Schreiber foi feito aos 31
anos. Submetido a cirurgia e sessões de quimioterapia, conseguiu
controlar a doença. Em 2000, o tumor voltou. Ele, então, mudou
radicalmente seu estilo de vida. Depois de uma pesquisa exaustiva,
lançou o livro
Anticâncer, no qual defendia a meditação, a
ioga, os exercícios físicos e a adoção de uma dieta rica em ômega-3,
como práticas a ser seguidas para evitar a doença ou contê-la.
“Podemos Dizer Adeus
é também uma resposta aos leitores que talvez venham a se perguntar
como o autor de Anticâncer morreu de câncer”, disse a VEJA o engenheiro
Franklin Servan-Schreiber, um dos irmãos do psiquiatra. E ela está na
página 53: “Podemos pôr todos os nossos trunfos no jogo. Mas o jogo
nunca está ganho”. Não fossem os hábitos saudáveis que adquiriu,
Servan-Schreiber não teria tido a oportunidade de aprender a morrer.
Terminado o livro, o médico recolheu-se na antiga casa da família na
região francesa da Normandia. Ali, nas últimas semanas, recebeu a visita
de parentes e amigos. A mulher e os filhos pequenos o visitavam com
frequência. O adolescente Sacha veio dos Estados Unidos para se despedir
e viu o pai poucas horas antes de ele fechar os olhos pela última vez.
Servan-Schreiber morreu à noite, por volta das 9 horas, na companhia da
mãe, Sabine, e dos três irmãos. Sobre o medo da morte, o diretor
americano Woody Allen fez a seguinte piada: “Não que eu esteja com medo
de morrer. Apenas não queria estar lá quando isso acontecesse”.
Servan-Schreiber certamente também não queria. Mas estava lá e aguentou
firme, como seu pai ensinou.
Fonte:
Veja Brasil
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